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Abrir o relacionamento pode dar certo? Psicóloga explica o que um casal precisa saber antes de tentar

Trisal em relacionamento aberto

A ideia aparece. Às vezes como fantasia, às vezes como brincadeira. Em outros casos, depois de anos de relacionamento.

“E se a gente abrisse a relação?”

São poucas palavras, mas capazes de provocar uma mistura explosiva de curiosidade, excitação, insegurança, medo e ciúme.

Para alguns casais, permitir experiências com outras pessoas pode trazer cumplicidade e uma nova maneira de viver o relacionamento. Para outros, pode revelar problemas que estavam apenas escondidos debaixo do tapete.

Então, afinal: é possível abrir um relacionamento sem destruir o que já existe?

Para a psicóloga e sexóloga Marina Rotty, especialista em relações não monogâmicas e adepta desse modelo há mais de 15 anos, a resposta é sim.

Mas existe uma enorme diferença entre abrir uma relação e simplesmente retirar suas regras.

Relacionamento aberto não significa relacionamento sem compromisso

Esse talvez seja um dos primeiros mitos que precisam ser derrubados.

Quando imaginamos uma relação aberta, é fácil cair no estereótipo de um casal em que cada pessoa simplesmente faz aquilo que deseja.

Na prática, relações não monogâmicas consensuais podem exigir justamente o contrário: muita conversa e acordos bastante claros.

Quem pode?

Quando pode?

Pode sair sozinho?

Pode repetir a pessoa?

Pode haver envolvimento emocional?

Queremos saber quando alguma coisa acontecer ou preferimos não saber?

O que acontece se alguém sentir ciúme?

Cada casal pode chegar a respostas completamente diferentes.

O importante é que os dois saibam em qual relacionamento estão entrando.

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Antes de abrir a relação, descubra por que vocês querem abri-la

Existe uma diferença enorme entre dizer:

“Nossa relação está ótima e temos vontade de experimentar algo novo juntos.”

e:

“Nossa relação está péssima. Talvez outras pessoas resolvam.”

No primeiro cenário existe exploração.

No segundo, pode existir fuga.

Adicionar novas pessoas a uma relação não elimina automaticamente problemas antigos. Pelo contrário: insegurança, ressentimento, falta de diálogo e desconfiança podem ficar ainda mais evidentes quando aparecem novas experiências.

Por isso, antes de perguntar “com quem?”, talvez seja mais importante perguntar:

“Por quê?”

E quando apenas um quer?

Aqui começa uma das situações mais delicadas.

Uma pessoa pode ter enorme curiosidade pelo universo liberal enquanto a outra deseja continuar em uma relação exclusivamente monogâmica.

Nenhuma delas está necessariamente errada.

O problema começa quando alguém transforma seu desejo em pressão.

Aceitar uma relação aberta apenas por medo de perder o parceiro não é exatamente uma escolha livre.

Da mesma maneira, exigir que alguém abandone definitivamente uma necessidade importante para preservar o relacionamento pode gerar frustração e ressentimento.

Existem incompatibilidades que podem ser negociadas.

Outras, talvez não.

E descobrir isso faz parte da conversa.

O ciúme não desaparece quando a relação abre

Talvez este seja um dos maiores enganos sobre relacionamentos liberais.

Pessoas não monogâmicas também podem sentir ciúme.

Abrir uma relação não instala magicamente uma atualização emocional chamada “ciúme desativado”.

Imagine, por exemplo, ver seu parceiro demonstrando desejo por outra pessoa diante de você.

Na fantasia parecia excitante.

Na realidade bateu aquela pontada no estômago.

E agora?

O problema não é necessariamente sentir ciúme. A questão é entender o que esse sentimento está tentando comunicar.

Medo de perder o parceiro?

Comparação com outra pessoa?

Insegurança com o próprio corpo?

Sensação de estar sendo deixado de lado?

Receio de que uma aventura se transforme em envolvimento afetivo?

Identificar a origem do desconforto pode ser muito mais produtivo do que simplesmente fingir que ele não existe.

Acordos não são contratos eternos

Um casal pode decidir inicialmente que só terá experiências quando estiver junto.

Depois perceber que isso funciona.

Ou que não funciona.

Pode permitir beijos, mas estabelecer outros limites.

Pode começar frequentando ambientes liberais apenas para observar.

Pode experimentar e decidir voltar à monogamia.

Nada disso precisa ser encarado como fracasso.

Relacionamentos são construídos por pessoas — e pessoas mudam.

Por isso, os acordos também podem precisar mudar.

O fundamental é que essas alterações sejam conversadas antes de alguém decidir unilateralmente que uma regra deixou de valer.

Porque existe uma diferença bastante simples entre não monogamia consensual e traição:

consentimento.

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Começar devagar pode evitar grandes problemas

Existe outro erro bastante comum: transformar a primeira experiência em uma espécie de vestibular do mundo liberal.

“Já que resolvemos experimentar, vamos fazer tudo.”

Não precisa.

Um casal curioso pode começar conversando sobre fantasias.

Depois conhecer pessoas que vivem relações liberais.

Pode visitar uma casa de swing apenas para conhecer o ambiente.

Pode observar.

Pode flertar.

Pode ir embora sem fazer absolutamente nada.

E pode descobrir que prefere deixar tudo apenas na fantasia.

Entrar em um ambiente liberal não cria obrigação de fazer coisa alguma.

Aliás, saber dizer “não quero continuar” é parte fundamental de qualquer experiência baseada em consentimento.

O terceiro não é um acessório do casal

Existe ainda uma questão que merece atenção especial.

Quando um casal decide incluir outra pessoa em uma experiência, é fácil enxergá-la apenas como personagem da fantasia dos dois.

Mas existe uma terceira pessoa ali.

Com desejos.

Limites.

Expectativas.

Inseguranças.

E direito de mudar de ideia.

Os acordos do casal são importantes, mas não podem ignorar a autonomia de quem entra naquela experiência.

Liberdade funciona para todos os envolvidos — não apenas para quem fez o convite.

Proteção também precisa entrar na conversa

Conversar sobre limites emocionais sem conversar sobre saúde s&xual deixa uma parte importante do planejamento de fora.

Preservativos, testagem para ISTs e quais práticas serão ou não realizadas são assuntos que precisam ser tratados com naturalidade.

Pode não parecer a conversa mais sedutora do mundo.

Mas responsabilidade não estraga uma boa experiência.

Improvisação irresponsável, sim.

Então abrir o relacionamento aproxima ou separa?

Pode fazer as duas coisas.

Para alguns casais, discutir desejos que permaneceram escondidos durante anos produz uma intimidade que eles nunca haviam experimentado.

Para outros, a conversa revela diferenças profundas sobre exclusividade, desejo, amor e compromisso.

E existe uma conclusão importante nisso:

abrir o relacionamento não deveria ser o objetivo. Encontrar um modelo de relacionamento que faça sentido para os envolvidos deveria ser.

Marina Rotty trabalha justamente com a ideia de que diferentes pessoas podem se adaptar melhor a diferentes configurações relacionais.

Monogamia pode funcionar.

Relacionamento aberto pode funcionar.

Swing pode funcionar.

Outras formas de não monogamia também podem funcionar.

Nenhuma delas possui certificado automático de felicidade.

A pergunta que talvez todo casal devesse fazer

Curiosamente, muitas das conversas necessárias para abrir um relacionamento também poderiam melhorar relações monogâmicas.

Quais são nossos limites?

Do que sentimos ciúme?

Quais fantasias nunca contamos?

O que consideramos traição?

Estamos satisfeitos com nossa vida íntima?

Ainda conseguimos falar sobre desejo?

Talvez você termine todas essas conversas e conclua que jamais deseja abrir sua relação.

Tudo bem.

Porque liberdade afetiva não significa obrigatoriamente ter vários parceiros.

Significa também poder escolher conscientemente ficar com apenas um.

No final, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Nosso relacionamento deveria ser aberto ou fechado?”

Mas uma bem mais desconfortável:

“O relacionamento que temos hoje é realmente aquele que nós dois queremos ter?”

E essa resposta nenhum acordo pronto encontrado na internet poderá dar por vocês.

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